Em O Brasil como problema, O Antropólogo, político, educador, Brasileiro, nacionalista, fundador de Universidades, criador do Ciep e rival de Pedro Álvares Cabral (pois é também redescobridor do Brasil) Darcy Ribeiro reúne em um único volume diversos de seus escritos, alguns refeitos, outros inéditos, tudo em um único livro. Neste livro, o autor conhecido nacionalmente e internacionalmente expressa a sua visão de mundo. Apaixonado pelos Índios e por todas as suas culturas, assim como é apaixonado pelos negros e mulatos, dedicou seu trabalho a melhorar objetivamente as condições de vida dessas populações, que são condições de pobreza e de explocação. O sistema-mundo no qual o país está inserido, segundo o autor, é nada além de uma máquina de moer gente, para o benefício de uns poucos. Dessa premissa, o autor problematiza o país, estabelecendo aquilo que promove essa máquina de assassinato sistemático e produtora de pobreza, que é o neoliberalismo. É paradigmático o Brasil, um país tão rico e vasto, não ser uma grande potência com uma população repleta de oportunidades e de abundância alimentícia e de trabalho. Como Darcy assinala no texto, muitas hipóteses ideológicas e totalmente deslocadas da realidade surgem para explicar este paradigma do subdesenvolvimento, como a ideia de que o calor e o clima são desfavoráveis ao pensamento e, portanto, inibidor do desenvolvimento, assim como a noção racista de que o subdesenvolvimento brasileiro se deve ao caráter miscigenado de nossa população, ou ainda: a noção de que a religiosidade católica, predominante no país, inibe o desenvolvimento, sendo a religiosidade protestante necessária para se ter uma sociedade apta a desenvolver-se. A começar por esta última ideia descolada da realidade, basta olhar para Itália e França, países católicos e desenvolvidos, desenvolveram-se sem protestantismo, então este não pode ser o empecilho do
Brasil. A noção de que nosso problema é a miscigenação: além de totalmente deslocada da realidade, exprime o racismo e o preconceito direcionado as populações dos trópicos. A outra noção de que o clima quente inibiria o desenvolvimento, além da escassez de evidências para sustentar tão afirmação, é paradigmático: justamente por seu clima, o Brasil é a terra onde tudo que se planta, dá! É o melhor lugar para se viver. O calor e o frio aqui não matam a vida, não inibem o crescimento. Tem safra o ano todo. O paradigma do subdesenvolvimento Brasileiro não encontra solução por ai. Adotar o Brasil como causa, como problema, é procurar explicar esse paradigma. E é isso que Darcy Ribeiro Buscou neste livro – o Brasil como um problema. As causas do subdesenvolvimento podem der dadas por varias correntes teóricas. A posição defendida no livro, dentre muita coisa que ali é defendida, é a de que no sistema neoliberal globalizado, um país periférico como o Brasil, que não participou da industrialização junto de países como a Inglaterra, França e Estados Unidos, nas relações com os países centrais, sai sempre perdendo. Seja na troca do bem industrializado pela matéria-prima ou mesmo em acordos comerciais desiguais, nações mais fortes militarmente e economicamente possuem mecanismos de hegemonia suficientes para interferir em assuntos internos de outros países, colocando assim a política interna destes em favor de seus interesses. Do golpe de 1964 à privataria tucana, o que se tem é um alinhamento econômico do país neste sistema de perdas. A elite dominante, contente em sua posição confortável de gestora da dependência, subverte a democracia, assassina pobres e pretos se assim for lucrativo. E assim se sucede e se reproduz esse modelo que só possui como possibilidade gerar mais pobreza geral e riqueza de poucos, por sua incapacidade intrínseca de gerar uma prosperidade generalizada. Para Darcy Ribeiro:
Há um amplíssimo lugar em nossa economia para a expansão das empresas privadas, inclusive das multinacionais. Mas temos que exigir delas, através da vigilância do Estado, que atuem solidariamente com os interesses nacionais, não contribuindo para degradar nossa moeda, não se entregando às práticas usuais do roubo de divisas, não se dedicando a buscar, por todos os meios, a liquidação de concorrentes ou fornecedores
nacionais, não desgastando em vão nossos recursos naturais não renováveis, nem prosseguindo na devastação que já deteriorou vastas áreas de elevado potencial de recursos renováveis de nosso país. (2016)
A colonização portuguesa e Espanhola na América foi uma das aventuras mais desordenadas que já se teve. Com uma ocupação irresponsável e unicamente voltada a gerar riquezas à metrópole, reduziu-se uma população que, somente no Brasil contavam cinco milhões de nativos, segundo estimativas, a menos de um milhão. Este número, maior do que havia de gente na Europa, foi reduzido no processo colonial a 300 mil. O que se tem neste processo de dominação colonial é o genocídio, propriamente dito. Nem sempre por violência direta e intencional. Boa parte destas mortes são derivadas das diferenças biológicas entre o nativo Americano e o Nativo Europeu, estes últimos trouxeram junto de seus corpos fétidos e brancos doenças cuja corporeidade indígena, apesar de forte, sadia e limpa, não tinha resistência aos vírus e bactérias que contaminavam a Europa.
Apesar disso, a matriz do povo Brasileiro é o útero indígena. Como afirma Darcy Ribeiro no texto, dentre os africanos tornado escravos por aqui, a maioria eram homens. Vieram menos mulheres. Mulheres brancas no período colonial eram em número menor ainda. De forma que o útero que gerou o Brasileiro é senão o útero indígena. Isso até por relações culturais dos indígenas. Pois quando chegava aqui o colonizador, o índio cordial interessado em algumas mercadorias como itens de ferro, que o europeu dominava, sentia a necessidade de fazer comércio com este, e para isso, uma relação de proximidade era necessária. Uma das formas de se ter essa maior aproximação é através do cunhadismo, onde de determinado grupo, uma mulher é dada como esposa ao estrangeiro para que este se torne cunhado, portanto membro da família extensa indígena. A partir dessa relação de familiaridade estabelece-se o escambo, e o indígena passa a prestar favores ao Europeu, como servir de mão de obra na extração de pal-Brasil, como guia ou como remador em canoas rio afora. Nessa relação, o europeu comercializava suas mercadorias e como subproduto, possuía a relação carnal com a nativa. Dessa relação surgem os mamelucos. Gente sem nome, sem
origem. O mameluco não era branco, não era Europeu, e também não era indígena. Ele era algo novo, algo que até então estava sem lugar. Era o brasileiro nascente. Alguém que encontra nos trópicos sua gênese. Tomar o Brasil como um problema é tomar este povo sem lugar como amostra. Suas relações e seu desenvolvimento, da época colonial ao neoliberalismo globalizado.
Um intelectual dinamarquês pode legitimamente dedicar-se ao que bem quiser, indiferente à ordem social, porque a Dinamarca deu certo. Seu povo realiza suas melhores potencialidades dentro da civilização a que pertencem. Um intelectual Brasileiro já não possui essa liberdade. O Brasil ainda não deu certo. Um país que exporta toneladas e mais toneladas de soja, ao passo que tem parte de sua população passando fome não é um país que deu certo. Darcy Ribeiro defende então que o intelectual deve atuar politicamente na busca da redução dessas desigualdades.
O texto aqui abordado possui qualidades inexoráveis, muito afiado com a realidade e dotado de uma preocupação ética necessária para com a construção de um país menos injusto. A ideia de uma sociedade mais justa que promova à população o ambiente para que exerçam todas as suas possibilidades é o fim último que mobilizou toda a produção de Darcy Ribeiro, e é a mesma energia que deve ordenar o trabalho de todo intelectual orgânico.

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