A SALVAÇÃO DA LAVOURA: MICRO DESTILARIA E AUTODESENVOLVIMENTO NA VIDA E OBRA DE MARCELLO GUIMARÃES

Em fevereiro de 2003, Mario Drumond publicou na revista Caros Amigos n°71 uma entrevista¹ com o geólogo Marcello Guimarães. Este cientista, formado na Escola de Ouro Preto, trabalhou em Rondõnia, Mato Grosso, Amazonas, Pará. Participou do Pró-Álcool e dirigiu a Acesita Florestal em Minas Gerais. Foi o primeiro civil a exercer o comando do Departamento nacional de Combustíveis. Por este currículo extenso, Marcello Guimarães acumulou uma série de conhecimentos em torno da questão energética que o deu a capacidade de desenvolver trabalhos experimentais em torno da Biomassa que são verdadeiramente revolucionários. [Na época da entrevista] Há vinte anos Marcello vinha publicando suas ideias, impressas em plaquettes, cadernos, etc., e destas publicações, o Sociólogo e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora Gilberto Vasconcellos extraiu ricos e suficientes dados que formam seu livro “A salvação da lavoura”. Salvação essa que é possível graças as ideias e a genialidade de Marcello Guimarães. A entrevista aconteceu no laboratório de ideias do cientista, que na verdade não se trata de um laboratório últra-tecnológico, com aparelhos importados e alta rigorosidade técnica ou custos exorbitantes; este laboratório é na verdade a maior expressão do que o próprio Marcello chama de autodesenvolvimento: em sua própria fazenda, em um galpão feito utilizando a rudimentar técnica do pau-a-pique, num espaço compartilhado com os animais da fazenda, há máquinas capazes de produzir um revolucionário e cobiçado combustível – O álcool. A máquina, assim como o galpão, foram autonomamente desenvolvidos e manufaturados na própria fazenda utilizando sucata. Sem importações das grandes indústrias, sem dependência financeira ou tecnológica da centralidade do capitalismo, Marcello Guimarães faz em sua pequena propriedade um produto equivalente ao petróleo, porém com a grande vantagem de ser renovável. A construção dessa micro-destilaria que produz o bio-combustível em uma pequena propriedade é o experimento que confirma as ideias revolucionarias de Marcello Guimarães: é possível produzir combustível de forma barata e eficiente, com um baixo custo, e com um potencial enorme de geração de empregos e de renda no campo, que em outras visões de mundo só é lucrativo se for aplicado o agrotóxico em larga escala e a técnica da monocultura voltada à exportação, a plantation. A micro-destilaria de álcool destrói o paradigma entre campo cidade, gera renda e desenvolvimento de uma forma que respeita o meio-ambiente, a terra e o ecossistema, ao passo em que garante a soberania e autonomia energética nacional. Do álcool, desenvolve-se através da alcoolquímica uma série de produtos como plásticos e borrachas muito melhores do que aqueles desenvolvidos pela petroquímica, pois ao contrário deste último, o plástico derivado do Álcool é biodegradável. É um produto de vastas aplicações e ótimo valor, que pode ser produzido autonomamente na pequena propriedade sem que para isso seja necessário grandes investimentos ou um grande sacrifício ambiental. O petróleo é um recurso finito, que se forma ao longo de milhões e milhões de anos em poços concentrados em lugares específicos. Tais poços estão secando devido a alta demanda energética da indústria e dos transportes, e não há possibilidades geológicas de que novos poços de petróleo se formem até que se esgote a atual reserva. Levaria outro bilhão de anos até que haja novamente a possibilidade de se extrair de novos poços. O álcool, Que é derivado das plantas e da fotossíntese, ao contrário do petróleo, é renovável. Se corretamente manejado, em uma área de 3 hectares é possível produzir 100 litros de álcool por dia. E sempre há, desde que existam as condições físicas para tal, a certeza de que no próximo ano haverá outra colheita. A biomassa é a síntese de dois outros fatores abundantes no Brasil, que são a terra sem gente, e a gente sem terra. Estes valiosos recursos unidos em torno da micro-destilaria autodesenvolvida produzem combustível, produzem comida, produzem plástico, borracha, energia elétrica, e tudo mais que deriva da biomassa. A rapadura, o açúcar, o bagaço que alimenta o gado, que dá leite, carne, couro; O brasil, por sua longa extensão territorial e sua privilegiada posição cósmica, banhado pelos ventos solares, que abastecem nossas plantas de energia, por sua abundante água doce e sua gente trabalhadora, será, através da biomassa e da revolução que são as ideias de Marcello Guimarães, não só a salvação da lavoura, mas também a salvação do mundo.

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